
SalvadorCard 2006: Um projeto UNE-SETPS
Por Felipe Ramos
Sob dois princípios gerais, aparentemente positivos, sejam eles a modernização tecnológica e o incremento da segurança no transporte público, o SETPS e a UNE, com intermediação e aval da Prefeitura, criaram o Salvadorcard.
Mas o patronato das empresas de transporte coletivo tem basicamente 4 interesses:
1- reduzir o número de meias-passagens
2- aumentar a receita
3- demitir cobradores
4- reduzir custos
Reduzir o número de meias-passagens através da dificuldade imposta ao estudante e conseqüente subutilização de seu direito. O salvadorcard extinguirá o pagamento da meia passagem no interior dos ônibus, pois os estudantes deverão comprar seus créditos com antecedência (se o ônibus for assaltado só o dinheiro dos passageiros será levado, o dos empresários estará em segurança...). O limite de três recargas por mês no cartão nos obriga a recarregar no mínimo R$ 25,00 por vez. A questão é que, não raro, temos apenas o dinheiro da semana. Desta forma, mesmo que tenhamos R$ 5,00, por exemplo, se não recarregarmos o cartão em pelo menos R$25,00, estaremos impedidos de pegar ônibus. Se você recarregar menos utilizará menos meias-passagens do que tem efetivo direito.Para não falar que só existem dois postos de recarga em toda a cidade (Iguatemi e Comércio), portanto preparem-se para longas esperas na fila.
O aumento da receita é óbvio, posto que o cartão salvadorcard é pré-pago.Demissão de cobradores e redução de custos são duas faces da mesma moeda e são objetivos de médio prazo. Com a tecnologia pré-paga que dispensa o papel moeda, os cobradores serão postos no olho da rua.
A integração com os sistemas informatizados de controle de freqüência escolar para reduzir as meias-passagens, também é um dos objetivos do sistema. Aqueles jovens que se matriculam na rede pública de ensino, mas são obrigados a largar os estudos e trabalhar para sobreviver terão seu direito à meia-passagem cassado pelas atualizações das freqüências escolares.
Em que isso atinge os alunos da rede privada? Em nada! Mas quem tem pouco terá menos ainda! É a forma histórica de distribuição de renda no Brasil. Quem tem, ganha ainda mais.
E ainda por cima, há a compulsória "contribuição" à UNE. Todos os estudantes universitários ficam obrigados a pagar R$3,10 aos burocratas vendidos desta entidade politicamente falida para os interesses dos estudantes. A UNE arrecadará milhões de reais, juntamente com a UBES, e poderá bancar a candidatura de burocratas nas eleições, fazer milhares de panfletos para defender projetos espúrios do governo e ainda por cima, defender os interesses do SETPS, que deu este presentão para os corruptos da UNE!Esta é a situação infeliz para nós, estudantes. Em um momento de ofensiva do capital, representado pelo SETPS e com apoio do Estado (Prefeitura), não temos mais sequer a UNE pra nos ajudar na luta, pois esta entidade histórica faleceu para os estudantes e hoje é aliada de quem devemos combater. Mas não devemos cair na resignação da contemplação passiva. Para além dos desabafos orkutianos, está a realidade à nossa espera. Há uma iniciativa de estudantes de Filosofia para requisitarem uma intervenção do Ministério Público. O que não podemos é "sentar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar". "Quem não luta, morre a prazo!"
Ainda tem a propaganda da UNE-UBES em horário nobre, deturpando todo o sentido das lutas estudantis históricas, e colocando o Salvadorcard como mais uma conquista. O Salvadorcard, da forma como está posto, é prejudicial aos estudantes, e foi fruto de um “acordão” entre os magnatas do transporte e os vendidos da UNE. Não há conquista alguma! E por falar nisso, quem pagou as propagandas? Será que o SETPS já deu um adiantamento?
E agora uma breve reflexão: Vivemos na sociedade pós-ideologia, onde tudo é colocado em termos técnicos. Abaixar ou não os juros é posto como uma questão onde a Política não deve interferir, mas apenas a sapiência dos tecnocratas. A desgraça social de um país, fruto de tais decisões, não é posta em discussão. É com grande tristeza que assisto a UNE, entidade fundada em 1937 e que já emcampou diversas lutas abnegadas em prol dos estudantes e até do país como um todo, render-se ao discurso pós-política. Estado, capital privado e entidade representativa de classe são conceitos completamente fundidos em um só, na presente ação da UNE. A colaboração de classe se dá em detrimento da classe a qual a UNE deveria representar. UNE, UBES, UJS, PT, PCdoB são todas organizações liberais, na presente conjuntura. Trata-se do fim de uma era (que começou a acabar com o fim do chamado "socialismo real"). Agora devemos sacudir a poeira e dar a volta por cima. Uma nova era se abre diante de nós e seu começo é sombrio. Resta-nos sonhar novos sonhos e, a partir deles, lutar novas lutas. Aprendemos com a História, agora é hora de fazermos a nossa!



