SalvadorCard: um atentado à razão!
SalvadorCard 2006: Um projeto UNE-SETPS
Por Felipe Ramos

Sob dois princípios gerais, aparentemente positivos, sejam eles a modernização tecnológica e o incremento da segurança no transporte público, o SETPS e a UNE, com intermediação e aval da Prefeitura, criaram o Salvadorcard.
Mas o patronato das empresas de transporte coletivo tem basicamente 4 interesses:
1- reduzir o número de meias-passagens
2- aumentar a receita
3- demitir cobradores
4- reduzir custos

Reduzir o número de meias-passagens através da dificuldade imposta ao estudante e conseqüente subutilização de seu direito. O salvadorcard extinguirá o pagamento da meia passagem no interior dos ônibus, pois os estudantes deverão comprar seus créditos com antecedência (se o ônibus for assaltado só o dinheiro dos passageiros será levado, o dos empresários estará em segurança...). O limite de três recargas por mês no cartão nos obriga a recarregar no mínimo R$ 25,00 por vez. A questão é que, não raro, temos apenas o dinheiro da semana. Desta forma, mesmo que tenhamos R$ 5,00, por exemplo, se não recarregarmos o cartão em pelo menos R$25,00, estaremos impedidos de pegar ônibus. Se você recarregar menos utilizará menos meias-passagens do que tem efetivo direito.Para não falar que só existem dois postos de recarga em toda a cidade (Iguatemi e Comércio), portanto preparem-se para longas esperas na fila.

O aumento da receita é óbvio, posto que o cartão salvadorcard é pré-pago.Demissão de cobradores e redução de custos são duas faces da mesma moeda e são objetivos de médio prazo. Com a tecnologia pré-paga que dispensa o papel moeda, os cobradores serão postos no olho da rua.
A integração com os sistemas informatizados de controle de freqüência escolar para reduzir as meias-passagens, também é um dos objetivos do sistema. Aqueles jovens que se matriculam na rede pública de ensino, mas são obrigados a largar os estudos e trabalhar para sobreviver terão seu direito à meia-passagem cassado pelas atualizações das freqüências escolares.

Em que isso atinge os alunos da rede privada? Em nada! Mas quem tem pouco terá menos ainda! É a forma histórica de distribuição de renda no Brasil. Quem tem, ganha ainda mais.
E ainda por cima, há a compulsória "contribuição" à UNE. Todos os estudantes universitários ficam obrigados a pagar R$3,10 aos burocratas vendidos desta entidade politicamente falida para os interesses dos estudantes. A UNE arrecadará milhões de reais, juntamente com a UBES, e poderá bancar a candidatura de burocratas nas eleições, fazer milhares de panfletos para defender projetos espúrios do governo e ainda por cima, defender os interesses do SETPS, que deu este presentão para os corruptos da UNE!Esta é a situação infeliz para nós, estudantes. Em um momento de ofensiva do capital, representado pelo SETPS e com apoio do Estado (Prefeitura), não temos mais sequer a UNE pra nos ajudar na luta, pois esta entidade histórica faleceu para os estudantes e hoje é aliada de quem devemos combater. Mas não devemos cair na resignação da contemplação passiva. Para além dos desabafos orkutianos, está a realidade à nossa espera. Há uma iniciativa de estudantes de Filosofia para requisitarem uma intervenção do Ministério Público. O que não podemos é "sentar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar". "Quem não luta, morre a prazo!"

Ainda tem a propaganda da UNE-UBES em horário nobre, deturpando todo o sentido das lutas estudantis históricas, e colocando o Salvadorcard como mais uma conquista. O Salvadorcard, da forma como está posto, é prejudicial aos estudantes, e foi fruto de um “acordão” entre os magnatas do transporte e os vendidos da UNE. Não há conquista alguma! E por falar nisso, quem pagou as propagandas? Será que o SETPS já deu um adiantamento?

E agora uma breve reflexão: Vivemos na sociedade pós-ideologia, onde tudo é colocado em termos técnicos. Abaixar ou não os juros é posto como uma questão onde a Política não deve interferir, mas apenas a sapiência dos tecnocratas. A desgraça social de um país, fruto de tais decisões, não é posta em discussão. É com grande tristeza que assisto a UNE, entidade fundada em 1937 e que já emcampou diversas lutas abnegadas em prol dos estudantes e até do país como um todo, render-se ao discurso pós-política. Estado, capital privado e entidade representativa de classe são conceitos completamente fundidos em um só, na presente ação da UNE. A colaboração de classe se dá em detrimento da classe a qual a UNE deveria representar. UNE, UBES, UJS, PT, PCdoB são todas organizações liberais, na presente conjuntura. Trata-se do fim de uma era (que começou a acabar com o fim do chamado "socialismo real"). Agora devemos sacudir a poeira e dar a volta por cima. Uma nova era se abre diante de nós e seu começo é sombrio. Resta-nos sonhar novos sonhos e, a partir deles, lutar novas lutas. Aprendemos com a História, agora é hora de fazermos a nossa!

Los Angeles:A capital da futilidade
Por Dimitri Martins

Los Angeles é a capital do mundo; alguém duvida disso? Poderiam argumentar que hoje quem manda é Nova York, mas estão completamente errados, a capital mundial é Los Angeles, quem manda no mundo e na cultura hoje é Los Angeles...

À primeira vista, parece um despautério total pôr Los Angeles como a "capital do mundo", desbancar Nova York e ainda chamá-la de capital da futilidade... por quê? Vejamos!

Los Angeles, que tem como nome integral Reina de Los Angeles, Rainha dos Anjos em português foi fundada por frades franciscanos espanhóis, tem o nome da Virgem Maria e tem como padroeira a própria, sob o título de Nossa Senhora dos Anjos.

Os EUA, como todos sabem, começaram na costa leste, povo formado por puritanso espulsos da Inglaterra pelos anglicanos, que se estabeleceram nas treze colônias, tendo como centro as hoje Boston, Nova York e Washington. Pouco depois da Independência, em 1776, os EUA marcham ao oeste e conquistam boa parte dos territórios que outrora pertenciam a um outro país, o México, entre eles o pequeno povoado de Reina de Los Angeles.

A chamada Costa Oeste Americana estava separada da distante Costa Leste, não apenas territorialmente, mas cultutalmente. A Costa Oeste, católica e hispânica de formação jamais se coadunaria com o puritanismo do leste ou com uma certa neurose nova-iorquina (da típica cidade fundada por judeus), e abriu caminhos para negócios não tão puros assim. O exemplo é o Cassino de Las Vegas, e o vanguardismo crescente de Los Angeles, que torna-se a capital da vanguarda e da liberação, ao lado de San Francisco, de todas cidades do oeste. A esquerda americana e a indústria cinematográfica vanguardista e anti-tradicional encontram em LA o terreno fértil para sua manifestação, apoteose e apogeu.

Como conseqüência, hoje, a Califórnia é o estado mais rico da fereação americana, Los Angeles é uma cidade riquíssima, ao ponto de tornar-se a capital da futilidade, explico-me: a riqueza é algo necessário, mas chega-se a um ponto que já não faz mais sentido acumular, a simples acumulação em-si não melhora o estilo de vida. Torna-se necessário então a futilidade, na qual os artistas são primorosos: a vida torna-se presente na mídia, bafafás são freqüentes, as casas são luxuosíssimas, e até a Igreja de Nossa Senhora dos Anjos foi um exagero de 200 milhões de dólares.

Los Angeles é o oposto do mundo, e manda no mundo. Comanda e coloniza o mundo através de seus filmes, exporta valores e modus viventi, cria uma América que na verdade é uma grande expansão de Los Angeles e da Califórnia, torna-se a capital do fútil, do chique, e do cafona... consegue ser tudo isso, no meio do deserto!

Sobreviver em Salvador
Por Adailton Ferreira

Parece até um título fácil, mas na realidade não, bom... É sim, para quem mora em determinado lugar de Salvador, pode-se dizer que a cidade é subdividida em duas, e isso é claro, central e periférica, a parte difícil é dizer quem cerca quem.
Que os moradores da periferia (como eu tá ligado)? Vão ao centro para prestar serviço não é nenhuma novidade, mas e a diversão? E desfrutar a cidade? Aí são outros quinhentos, ou melhor, são outros 457.
Poderia citar milhões de motivos para não gostar da cidade, poderia divagar por mil fitas, mas a cidade é mãe, cidade litorânea, pátria dos desabrigados, lar de Dorival Caymmi e sempre será assim. Salvador continuará iludindo com sua leve manta, e se andarmos a noite por ela, não veremos somente boates, bares, casas de relaxamento, ruas nobres, comércios luxuosos que nos fazem ir para Europa, lojas que nos levam para o passado e por um pé no futuro. Mas se olharmos com detalhe veremos crianças, filhos de seus não tão ilustres moradores acompanhados da famosa "senhora do chapelão" (fome) em quase toda esquina.
“Mas passa fome quem quer em Salvador! Já diria o sábio professor a sua turma de alunos escolhidos pelo sistema financeiro de algum colégio tipo o Salesiano”.
É quente quem não quiser que venda chiclete, balinha, Bob esponja, afinal num é igual para todos a entrega do troféu de cidadão honorário.
Vem maranhense, vem pernambucano, vem recifense, mas daqui direto pro albergue, ou quem sabe para a periferia.
Não há vagas, mas há espaço para todos, desde que cada um esteja no seu devido lugar, certo mano?
Esse é só um lado da cidade? Pode ser sangue bom, mas é o lado que conheço, que convivo, de onde vejo somente as costas do PM, segurando seu fuzil, deixando claro que estamos sendo vigiados, o lado que me dá a lágrima, que reparti a dor da perca, o lado de quem não tem lado, de quem nunca é retratado, dá até rima, seu carro tem ar condicionado, aqui na perifa só muleque descalço.
Venham todos ver nesse aniversário, O rapa da prefeitura tomar a barraca daquela dona Maria que era empregada e perdeu o emprego, afinal somos a capital dos desempregados.
Venham festejar com o vizinho que saiu da cadeia há dois dias e ainda não sabe como irá fazer para comer e se vestir, vem que tem vaga pra você aqui é SSA.
A terra onde matar periférico causa silêncio e frustração e matar do outro lado da ponte causa indignação, passeatas, mudança na legislação.
E todos falam pra caramba, montam tese, mas passa um dia aqui pra vê se sobra orgulho dos textos mentirosos, dos verbos bem colocados, das frases bem montadas, que emocionam que chocam e que no final é tudo um monte de mentira, porque a Salvador que te cerca é de concreto e a nossa é de lama, a sua é; Graça, Vitória, Jardim das Arvores, Itaigara, Pituba e Barra, a nossa é; Cajazeira, Baixa fria, Mata Escura, Suburbana, Fazenda Grande do Retiro, Liberdade, Bairro da Paz.
Palavrão aqui na comunidade é DESEMPREGO, aqui é Salvador também, mas do marketing estamos além, fora da festa, fora da comemoração.
Na Área da Suburbana, onde vive a corja ninguém tá sabendo da festa, em Cajazeiras, São Caetano e Baixa da Égua não vi ninguém encher de rosas, nem ninguém restaurar, não vieram ao menos canalizar o córrego, no fim do dia não teve show, não teve visita de ninguém do poder público, mas vi um menino de 7 anos na ponte esperando a esperança, só não sei por quanto tempo. A única coisa que representa o governo por aqui é a polícia, então todos já imaginam como ele é representando.
Tá certo! Salvador é nossa também, afinal, lavamos, vigiamos, passamos, limpamos, digitamos, afogamos mágoas em pequenos bares, vivemos em pequenos casulos, comemos o pouco de ração que sobrou do outro dia, e ainda dizemos amém, Salvador City você é meu berço, pois não nascemos com nenhum de verdade.
Construímos e não moramos, fritamos e não comemos, assistimos, mas não vivemos, passamos vontade, mas passamos adiante.
O que? Ah! A parti boa da cidade? Bom, acho que vou passar essa, vou deixar para alguém que viva nela, pois o termo aqui para nós é sobrevivência, mas com certeza deve ter muita coisa boa nela, Salvador é bem grande né? E tem muita diversidade cultural, assim como social.
Somos somente um reflexo de tudo isso, os catadores de materiais recicláveis, os balconistas, os motoristas, os flanelinhas, as empregadas domésticas, os vendedores ambulantes, os vigilantes, os meninos de Rua, os presos da Lemos de Brito, e mais uma porrada de gente te saúda e deseja mais consciência e consideração a seus moradores Salvador.

JK, o democrata das elites
Adailton Ferreira

A mini-série "JK", da Globo, tem uma série de problemas. Mostra Juscelino como um santo. Os bons atores estão enfiados em papéis ralos. O personagem de Kubitschek não conversa, faz discurso. O povo é um ilustre ausente. Mas, também revela o tipo de democracia que as elites impuseram no Brasil. Uma forma de dominação que, mesmo em seus momentos menos repressivos, é injusta e autoritária.

A construção de Juscelino Kubitschek como figura positiva vem sendo feita há muito tempo. Collor de Mello, por exemplo, convidou a viúva Sarah e a filha Márcia para sua posse. Fernando Henrique sempre se candidatou a ser seu sucessor. Na última campanha presidencial, Serra e Lula disputaram pare ver quem tinha o programa de governo mais parecido com o de JK.

A Globo faz parte desse esforço. Muito raramente, seus programas jornalísticos e documentários criticam o ex-presidente mineiro. A mini-série "Anos Dourados" incluía a figura de Juscelino entre os responsáveis pelo brilho dos anos 50. A atual mini-série, portanto, é o auge desse processo.

Mas quais as razões de tanta unanimidade ao redor justamente de um político? A resposta é complexa. Mas, JK foi um dos poucos presidentes que nunca se envolveu em uma grande encrenca. Getúlio foi considerado por muito tempo o "pai dos pobres". Mas, seu currículo inclui uma ditadura de 15 anos e promoveu o golpe de 1937, que matou, torturou e exilou milhares de pessoas.

Depois de JK, vieram Jânio e João Goulart. O primeiro não passou de um palhaço, cuja pirueta mais talentosa foi ter enganado milhões de eleitores. O segundo sempre foi acusado de ser simpático aos comunistas, mesmo sendo um fazendeiro. Não vacilou na hora de entregar as pontas quando a maioria da classe que realmente representava sustentou um golpe contra seu próprio governo.

Juscelino assumiu o poder após o primeiro ensaio do golpe militar antes de 1964. Estamos falando da tentativa de Carlos Lacerda de derrubar Getúlio. O golpe fracassou porque Vargas suicidou-se. Com isso, derrotou Lacerda, livrou-se de ser julgado e ainda fixou na memória popular a imagem do mártir de 1954 e não do ditador dos anos 30.

Mas, Lacerda não se deu por vencido e tentou impedir a eleição e a posse de Kubitschek, também. O golpe falhou novamente porque o conjunto das forças armadas não estava convencido de sua necessidade. O País ficou sob Estado de Sítio até que JK finalmente assumiu.

Democracia, sim. Exceto para pobres, negros, indígenas, mulheres
Juscelino não era bobo. Logo que assumiu, acabou com a censura. Sabia que acabar com ela era a melhor maneira de desarmar as argumentações de que ele chefiava um governo ilegítimo. Daí, ter feito um governo com um relativo grau de liberdade. Mas aí é que está. Democracia e liberdades para quem? Em primeiro lugar, durante o governo JK, o Partido Comunista foi mantido na ilegalidade. Ninguém do governo cogitou mudar isso. Em segundo lugar, quem votava na época? Os analfabetos, por exemplo, não tinham esse direito. E nos anos 50, a taxa de analfabetismo estava em cerca de 50% da população brasileira. Praticamente, todos eram pobres, negros, indígenas, mulheres. JK manteve o mesmo padrão de exclusão que já vinha reinando há séculos.

Como é que a mini-série, sem querer, mostra isso? Desaparecendo com os pobres e, principalmente, com os negros. Juscelino é mostrado como alguém que veio de família pobre e chegou a presidente. É verdade. Mas sua pobreza era suave se compararmos aos milhões de negros que, na época, haviam deixado de ser escravos há pouco mais de meio século. Na vida real, a enorme maioria desse setor da população estava excluída dos direitos mais básicos. Na mini-série, mal aparecem como personagens.

É verdade que JK era a favor do desenvolvimento. O problema é que tipo de desenvolvimento? Nos tais "anos dourados", 70% da população brasileira estavam no campo. Trabalhavam em terras que jamais passaram por uma reforma agrária. E Kubitschek não mexeu uma palha para acabar com uma das maiores concentrações de terras do mundo. Desenvolvimento sem, no mínimo, dividir a terra é crescimento sem democracia.

A mini-série transformou as obras de Brasília num canteiro feliz, chefiado com justiça quase divina por Israel Pinheiro. A harmonia do lugar só é estragada pelas trapalhadas dos pobres. A cozinheira alcoólatra, o peão pedófilo, o gaúcho bronco. Nem uma palavra sobre as 30 mil pessoas vindas principalmente dos sertões do País para trabalhar duro, ganhar pouco e até morrer nos canteiros de obras. Muitos dos prédios com as linhas curvas de Oscar Niemeyer devem conter centenas de cadáveres de trabalhadores misturados a seu concreto. Aliás, outro bom serviço feito por JK ao autoritarismo brasileiro foi colocar o centro do poder longe do povo. Brasília é uma verdadeira fortaleza contra manifestações e mobilização popular.

E as indústrias de base, a implantação das indústrias automobilísticas, as estradas? Não representam a modernidade? Sim. Mas modernidade conservadora. Siderúrgicas, usinas, estradas, fazem parte do cardápio que todo governo dependente tem que oferecer para que empresas estrangeiras venham se instalar em seus pobres países. São investimentos com retorno demorado. Então, que o governo use os impostos pagos pelo povo para realizá-las. Aí, chegaram as indústrias estrangeiras só para lucrar.

A modernidade de Juscelino é isso. Aceitar uma industrialização cujo centro de decisão fica nos países de origem das multinacionais. Oferecer oportunidades de lucro alto através da exploração gente que corre para as cidades, já que trabalhar no campo ficava cada vez mais difícil. Pra completar a obra, a industrialização concentrou-se em máquinas, tecnologia cara e em bens de consumo duráveis. Ou seja, nada disso, melhorava diretamente as condições de vida da maioria da população.

Kubitschek e Lacerda: oposição superficial
Ah, mas tem o FMI. A mini-série mostra Kubitschek rompendo bravamente com o Fundo. Só não disse que ele foi o primeiro a ter a brilhante idéia de fazer um acordo formal com o FMI. E, no final, ainda provocou inflação. Juscelino assumiu o governo com a inflação em 12,5% e terminou seu mandato com 30,5%. Quem acabou sofrendo mais com isso foram os trabalhadores, que não tiveram seus salários corrigidos na mesma proporção.

Tudo isso mostra que JK tinha projeto, sim. Mas, no essencial, um projeto voltado para os interesses da burguesia. Que mantinha e aprofundava a desigualdade social. Então, por que Lacerda fazia uma oposição tão encarniçada a Kubitschek?

A oposição entre JK e Lacerda vem do fato de que a classe dominante brasileira estava dividida desde 1930. De um lado, o setor dos coronéis, donos de latifúndios onde se produzia muito café, carne, cana e cacau para exportação. De outro, um setor empresarial, que queria apostar na atividade industrial, na urbanização e, principalmente, na exploração bem mais lucrativa dos operários das grandes fábricas.

Em 1930, Getúlio deu um golpe para obrigar os antigos coronéis a dividir o poder com os industriais. Mas, os antigos poderosos nunca aceitaram. O partido mais representativo deste setor era a UDN. Para eles, a vocação brasileira era mesmo a agricultura e pecuária de exportação. Exportar alimentos e matérias primas e importar todo o resto, de geladeiras a automóveis e máquinas. Daí, a oposição cerrada que faziam a Vargas, principalmente depois que ele foi eleito para o segundo governo, de 1951 a 1954. Lacerda era o maior líder dessa oposição. Juscelino e João Goulart eram os herdeiros do projeto iniciado com Getúlio.

Como resolver esse impasse? Lacerda defendia um golpe de estado para abrir de vez a economia para o capital estrangeiro. E foi o que finalmente acabou acontecendo, em 1964. E, talvez, este seja o momento mais revelador da mini-série. É nele que fica mais evidente a oposição superficial entre Juscelino e Lacerda. É, também, o momento em que vemos como a concepção de democracia da classe dominante brasileira é tão limitada.

Às vésperas do golpe, Kubitschek já não é presidente. É senador. Goulart está no poder, acuado pelas ataques da direita. O que faz Juscelino? Alerta contra a ameaça à democracia? Denuncia o papel nojento de Lacerda na montagem do golpe? Não. Aconselha Goulart a tornar público que não tem nada a ver com os comunistas. O golpe veio. O que faz Kubitschek? Questiona a derrubada de um presidente eleito? Não. Prepara-se para ser candidato novamente em 1965! Mas, seus planos logo vão por água abaixo. Tem seu mandado de senador cassado.

Roberto Marinho é a cereja do bolo fedido
Lacerda teve a alegria de ver seu antigo desafeto cassado. A alegria dura pouco. Ele também sonhava ser candidato à presidência. As eleições são adiadas. A mini-série mostra, então, os dois antigos inimigos mortais fazendo as pazes. Pretendiam exigir eleições. Os militares não lhes deram ouvidos. Esse episódio forma o próprio retrato da burguesia brasileira. Brigavam entre si, mas na hora H, não tinham qualquer projeto nacional independente do capital estrangeiro. Unia-os a manutenção da exploração e da repressão aos trabalhadores. Só tinham divergência na quantidade de exploração e repressão que deveria ser utilizadas. Enfrentar os golpistas com armas, nunca. Isso poderia abrir brechas para a resistência popular.

Mas, então, a quem representavam os militares? Ao projeto defendido por Lacerda. Só que, sem Lacerda, cujos planos passavam por eleições. E sem os preconceitos da UDN contra a ação do governo em favor do capital. É por isso que os militares mantiveram e aprofundaram a dependência externa do País que Lacerda tanto desejava. Mas, tal como Juscelino, continuaram a abrir estradas, criar estatais e empresas de base, facilitar a vinda de indústrias multinacionais. A modernização conservadora continuou e se aprofundou.

E por que os militares não ficaram com JK? Porque sua tradição política, vinda de Vargas, incluía buscar apoio entre os setores populares. E os militares consideravam perigoso esse tipo de política para os interesses da burguesia. Era preciso esmagar qualquer tentativa de ação popular. E foi o que fizeram, perseguindo a militância de esquerda do País. Somente assim seria possível modernizar sem distribuir os frutos da modernização. Com o povo calado, amarrado, amordaçado e com medo.

Enquanto isso, na mini-série, Juscelino, sua família e amigos andam pelos cantos de suas lindas casas reclamando dos golpistas. Agem como se tivessem chamado o pessoal da limpeza e descobrem duas coisas. A primeira é que o pessoal da limpeza resolveu tomar conta da casa. A segunda é que eles mesmos podem fazer parte do lixo a ser recolhido. E a atração global capricha no dramalhão. "Mas o que estão fazendo com você, Juscelino!", diz a apavorada Sarah diante da série de interrogatórios a que o marido é submetido. JK não fala. Como sempre, faz discurso: "Comigo, não, Sarah. Com a nação!" De repente, alguém avisa o ex-presidente: "Você é o inimigo no 1 do regime!"

Sim, inimigo no 1, certamente. Só que "o inimigo no 1 do regime" recebe autorização para sair do País. Partiu confortavelmente instalado num avião da FAB rumo a Portugal. Bem diferente dos milhares de sindicalistas, militantes e simpatizantes da esquerda que perderam seus empregos, foram presos, torturados e mortos. De vez em quando, um personagem cita esse tipo de perseguição. Mas o que importa, o que emociona (ou deveria), é o drama de Juscelino, mulher, filhas e da amante, claro. A nação? A nação são eles. E foi para a Europa.

A cereja desse bolo fedido é a aparição de Roberto Marinho como personagem. Sim, pela primeira vez, o falecido criador de uma das maiores máquinas de distorções do planeta aparece como parte dela. As aparições são poucas e sempre destacando o lado "democrático" de Marinho. Nenhuma palavra, por exemplo, sobre o apoio firme que o jornal "O Globo"deu à tentativa de golpe de Lacerda e da UDN contra a posse de Juscelino. Ou que Marinho foi grande incentivador do golpe de 1964. Ao contrário. Há uma cena em que Marinho, pouco antes da morte de Kubitschek, diz a este que "vivemos tempos negros". Ou seja, tal como muitos outros personagens da trama, este é mais um que não existiu na vida real.

Na verdade, o grande objetivo da mini-série parece ser o de impor um modelo. Algo que, em ano eleitoral, a classe dominante procura novamente apresentar como única alternativa. O futuro presidente, seja quem for, tem que ser como Kubitschek. Habilidoso o suficiente para parecer democrata, moderno, simpático, sem colocar em risco o padrão injusto e autoritário da democracia brasileira. É ver qual dos candidatos vence o desafio. Lula tem demonstrado enormes chances. Mas sempre é possível que prevaleça a capacidade de convencimento de algum outro junto aos poderosos.

A velha educação e o neo-ensino superior: PUC, bancos, BNDES, CNBB.
A crise da PUC-SP não para de produzir notícias que dão o que pensar.
Primeiro, a notícia informando que a instituição está demitindo professores e funcionários para, em breve, contratar outros pela metade dos salários. Prática, alias, que as escolas particulares vinham fazendo há muito, e que a PUC dizia se resguardar de fazer. De resto, prática vergonhosa.Agora, essa outra notícia de que o arcebispo d. Cláudio Hummes (manda-chuva da PUC) tenha ido pessoalmente pedir ajuda financeira a seu poderoso amigo, o presidente Lula - e que a "ajuda" possivelmente (e graças a Deus) venha do BNDES.
Notável, além disso, é a discreta presença no noticiário (e nos bastidores da crise) do Bradesco e do Amro Bank - os bancos, credores da PUC, que estão exigindo como se fossem interventores o saneamento financeiro daquela instituição de ensino.
No meio de tudo isso, a declaração do secretário-geral da CNBB, d. Odilo Scherer, reclamando da política de juros altos praticados pelo governo Lula, não poderia vir em momento mais oportuno - e oportunista.
O que temos é um emaranhado de interesses.
Estamos todos submetidos aos escorchantes juros do sistema bancário da era Lula-FHC. Lucros que, aliás, estão entre os maiores do planeta, como foi divulgado no noticiário, pouco antes do feriado momesco. A PUC, vê-se, não é exceção. Sua crise financeira tem mesmo todo o relevo que a imprensa de São Paulo tem dado. Representa o ponto final de uma queda de braços, travada à distância é verdade, entre a velha educação particular e o neo-ensino superior - tudo isso com o beneplácito do governo Lula. De um lado, está claro, instituições como as PUCs com tradição em educação superior que têm longa história de investimento em capital intelectual. De outro lado, as centenas de portinhas abertas sob o nome de "faculdades" e "centro universitários" que se alastraram pelo país nos últimos 10 anos - apoiadas pela tácita ausência do MEC.
O neo-ensino superior, de baixíssima qualidade, já vinha funcionando segundo a lei pura e simples da selva, e em regime de concorrência brutal. Nessa paisagem, nos últimos 10 anos, o que se vê é cobra engolindo cobra. Faculdade grande encampando as pequenas.
Os neo-donos das escolas que sobrevivem nessa selva têm vivido uma verdadeira corrida do ouro - diga-se para fazer justiça: com todos os seus riscos inerentes. Esses aventureiros (subitamente intitulados educadores) abriram botecos, chamados uni-centros e faculdades, para vender educação. E fizeram isso depois que o setor se tornou extremamente rentável lá pelos meados dos anos 90. São tudo, menos educadores: aqui, um fazendeiro, deixando o gado de lado para ser o diretor dessa escola; ali, temos um promotor aposentado que vira reitor; mais adiante, um administrador de empresas, etc.
Para o estudante (transformado em freguês), a lei é a da feira-livre: cursos oferecidos ao sabor da estação. Hoje, oferece-se tomate. Amanhã, couve. Compra-se esse ou aquele diploma conforme a oferta. Hoje, direito. Amanhã, administração, etc.
O conceito de educação nesse neo-ensino superior é muito estreito. Resume-se no tripé: sala de aula, conversa e giz. São escolas sem biblioteca, sem mestres/doutores, sem linhas de pesquisas, sem pós-graduação, sem tradição de ensino, etc. O capital usado para abrir essas "escolas" é auto-evidente. Trata-se (óbvio) do velho e bom dinheiro: a noção de "capital intelectual" soa vaga demais aos ouvidos desses neo-donos de escolas. Alega-se: é papo furado essa história de pesquisa, extensão, tradição em ensino, etc. Não há planejamento e não há controle governamental. O MEC libera quase tudo - e se exime de maior fiscalização. O quadro é de neo-liberalismo sem peias: o professor é somente aquele que saliva o blá-blá-blá. É ele, quase que inteiramente, a mão-de-obra que o dono de escola tem para explorar. O diploma é o que interessa nessa linha de montagem que tem praticamente só uma máquina: o professor. Na hora de "cortar custos" fica fácil - o caminho é a demissão. Além, é claro, de evitar contratar professores com doutorado ou mestrado - ou só contratá-los para fazer frente a uma muito remota e improvável visita do MEC. O que, diga-se de passagem, esses neo-donos de escola fazem sem o menor escrúpulo. Houve em algum momento alguém que protestou. Contra esses que alegam que é preciso preservar a "qualidade do ensino", impõe-se a implacável evidência das planilhas de custos. E aponta-se a faculdade concorrente que vende ao freguês cursos em 2 anos e meio, a R$150 a mensalidade. Dizem: se o concorrente faz por nós não faríamos? É essa a moralidade reinante. E tome demissão num quadro de concorrência selvagem.
A PUC, parece, vinha se preservando disso. À custa de um déficit de 4 milhões/mês - sabe Deus desde quando. Agora, entretanto, tenta se adequar aos tempos do neo-ensino superior. Trata-se de uma das poucas instituições particulares de ensino superior no Brasil que ainda preservava um conceito de educação mais alargado, ou seja, o velho conceito de educação superior no qual as bibliotecas, as linhas de pesquisa, as pós-graduações, a tradição em ensino, etc, ainda têm alguma valia. Numa palavra: tudo aquilo que o neo-ensino superior não tem e tem raiva de quem tem.
Contra sua conversão ao neo-ensino superior, a PUC recorreu ao Bradesco e ao Amro Bank. Pegou-os felizes - deitando e rolando na vida boa que a era Lula-FHC tem dado a eles e a todos os bancos nos últimos 12 anos. O "paraíso financeiro", nas palavras oportunas do secretário geral da CNBB, homem que entende de paraíso. Os bancos, que entendem muito de lucro e muito pouco de educação, estão agora cobrando o seu preço à PUC.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Aqui, é preciso dizer que a PUC, com todos os seus problemas de corporativismo e de má-gestão, ficaria encurralada de qualquer jeito. O que fez, correndo aos bancos, não foi nada mais do que adiar a capitulação. Tentou fugir da selva do neo-ensino superior e caiu na selva dos juros dos bancos brasileiros.Agora, entre um e outro, parece, escolheu os dois. O irônico disso (para os brasileiros comuns como eu que não são amigos de Lula) é que nem tudo está perdido. Não há o que se preocupar. Contra o regime de juros selvático do gordo, mas faminto, sistema financeiro da era Lula-FHC, há ainda o doce oásis do BNDES - com juros mais brandos para os amigos. Aqui, funciona provérbio que não tem nada de neo: para os amigos tudo, para os inimigos a lei - da selva.
O bispo foi se queixar ao presidente. Se o dinheiro do BNDES aparecer para salvar a PUC, vai soar como pura ingratidão a declaração do secretário-geral da CNBB reclamando dos juros altos de Lula. E o Lula não terá feito milagre maior que os que FHC fez no seu tempo.

Contos insanos
Por Alesson Vinícius

Caros visitantes do Idio Cultural, esta pequena serve para dizer-lhes acerca do novo blog que eu possuo destinado somente ao meus contos. Decidir caminhar por as veredas literárias e para dar vida aos meus contos é necessário que eles sejam lidos,então acessem o blog e critiquem, expressem a sua opinião sobre.

Acesse http://contosinsanos.blog.terra.com.br/

BBB= imbecilização
José Neumani Pinto
"No dia 24/01, a Rede Globo recebeu 29 milhões de ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser eliminado do “Big Brother”. Vamos colocar o preço da ligação do 0300 a R$ 0,30. Então, teremos R$ 8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e setecentos mil reais que o povo brasileiro gastou só nesse paredão. Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato 'fifty to fifty' com a operadora do 0300, ou seja, ela embolsou R$ 4.350.000,00. Repito, somente em um único paredão!
Alguém poderia ficar indignado com a Rede Globo e com a operadora de telefonia ao saber que as classes menos letradas e abastadas da sociedade, que ganham mal e trabalham o ano inteiro, ajudam a pagar o prêmio do vencedor e, claro, as contas dessas empresas. Mas o "x" da questão, caro(a) leitor(a), não é esse. É saber que se paga para obter um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos participantes e, conseqüentemente, daqueles que só bebem nessa fonte. Certa está a Rede Globo.
O programa “BBB” dura cerca de três meses. Ou seja, o “sábio público” tem ainda várias chances de gastar quanto dinheiro quiser com as votações. Aliás, algo muito natural para quem gasta mais de oito milhões numa só noite! Coisa de País rico como o nosso, claro.
Nem o Unicef, quando faz o programa “Criança Esperança” com um forte cunho social, arrecada tanto dinheiro. Vai ver deveriam bolar um "BBB Unicef". Mas tenho dúvidas se daria audiência. Prova disso é que na Inglaterra pensou-se em fazer um “Big Brother” só com gente inteligente. O projeto morreu na fase inicial, de testes de audiência. A razão? O nível das conversas diárias foi considerado muito alto, ou seja, o público não se interessaria.
Programas como “BBB” existem no mundo inteiro, mas explodiram em terras tupiniquins. Um país onde o cidadão vota para eliminar um bobão (ou uma bobona) qualquer, mas não lembra em quem votou na última eleição. Que simplesmente anula seu voto por não acreditar mais nos políticos deste País, mas que gasta seu escasso salário num programa que acredita de extrema utilidade para o seu desenvolvimento pessoal.
Que vota numa legenda política sem jamais ter lido o programa do partido, mas que não perde um capítulo sequer do “BBB” para estar bem informado na hora de PAGAR pelo seu voto. Que eleitor é esse? Depois não adianta dizer que político é ladrão, corrupto, safado, etc. Quem os colocou lá? Claro, o mesmo eleitor do “BBB”.
Aí, agüente a vitória de um Severino não-sei-das-quantas para Presidente da Câmara dos Deputados e a cara de pau, digo, a grande idéia dele de colocar em votação um aumento salarial absurdo a ser pago pelo contribuinte. Mas o contribuinte não deve ligar mesmo, ele tem condições financeiras de juntar R$ 8 milhões em uma única noite para se divertir (?!?!), ao invés de comprar um livro de literatura, filosofia ou de qualquer assunto relevante para melhorar a articulação e a auto-crítica...
Chega de buscar explicações sociais, coloniais, educacionais. Chega de culpar a elite, os políticos, o Congresso. Olhemos para o nosso próprio umbigo, ou o do Brasil. Chega de procurar desculpas quando a resposta está em nós mesmos. A Rede Globo sabe muito bem disso, os autores das músicas “Egüinha Pocotó”, “O Bonde do Tigrão” e assemelhadas sabem muito bem disso; o Gugu e o Faustão também. Não é maldade nem desabafo não, é constatação.”
Segundo Monteiro Lobato, um País se forma com HOMENS e LIVROS. Hoje em dia, num entendimento amplificado, desde que estamos vivendo na época da comunicação – o computador e, mais do que isso, o celular – o homem moderno ampliou seu universo social, mas vive totalmente IMBECILIZADO por esses mesmos componentes. É desnecessário ressaltar os inconvenientes dessa vida agitada e, muitas vezes, de pura alienação, que progressivamente vai isolando o homem atual, contribuindo para o seu próprio isolamento. Disso resulta, também, um certo pendor de egoísmo que torna alheio o convívio humano. Vale ressaltar, mais uma vez, que, contrariamente ao que se presume lógico, não tenha havido uma substancial febre de leitura entre nós brasileiros, os livros, por exemplo, que segundo o escritor pátrio, acima citado, juntamente com os homens são os construtores da pátria, não se multiplicaram em sua leitura como seria de esperar. Provavelmente, algo está faltando para o incentivo à leitura, mas pode ser que tal deva ser atribuído aos outros meios de divulgação, ou mesmo ao desinteresse coletivo. Enquanto isso, vamos continuar “descendo na boquinha da garrafa”. Lamentável! (Elenilson Nascimento)
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A LITERATURA DE FICÇÃO MORREU? (Mais uma vez)
Rubem Braga
Muito antes de publicar o meu primeiro livro eu já ouvia dizer que o romance e o conto estavam mortos. Parece que a primeira morte teria sido anunciada ainda em 1880, não obstante, como todos sabem, Emily Dickinson, Tchekov, Proust, Joyce, Kafka, Maupassant, Henry James, o nosso Machado, Eça, Mallarmé, as Bronte, Fernando Pessoa (um pouco mais tarde) estivessem ativos naquela época.

No início do séc. XX, com o lançamento, por Henry Ford, do Ford Model T, um automóvel popular, construído numa linha de montagem, um carro barato que em poucos anos vendeu mais de quinze milhões de unidades, as Cassandras afirmaram que agora a literatura de ficção, na qual se incluía a poesia, estava mesmo com os dias contados. Dentro de pouco tempo todas as pessoas teriam automóvel e usariam o carro para passear, fazer compras, namorar em vez de ficarem em casa lendo. Ou porque não soubessem o que lhes reservava o futuro, ou lá porque fosse, o certo é que muitos escritores, como Yeats, Benavente, Galsworthy, Selma Lagerlof, Rilke, Kavafis, Edna St. Vincent Millay continuaram escrevendo, e talvez até mesmo tivessem um Model T na garagem deles.

Nova anunciação mortal veio logo em seguida, causada pelo cinema, denominado de Sétima Arte. Uma pesquisa da época mostrou que em cada 100 pessoas 80 freqüentavam o cinema e 2 (duas!) liam livros de ficção. Agora mesmo é que a literatura, enfim, havia morrido. Desta vez não tinha salvação. Mas Sinclair Lewis, Thomas Mann, Bunin, Céline, Ana Akhmatova, O'Neill, Pirandello, e muitos outros não sabiam disso. (Os dois últimos são autores de teatro, mas o teatro começou a morrer antes).

Depois nova morte foi profetizada, quando do advento da televisão. Mas William Faulkner, Eliot, Gide, Hesse, Quasimodo, Pasternak, Camus, Hemingway, Beckett, Seferis, Kawabata, Mauriac, Steinbeck e muitos mais não pararam de escrever. Que diabo, esses caras não liam os jornais? Não sabiam que a literatura de ficção havia morrido?

Afinal veio o golpe de misericórdia: o computador e a Internet. Era a pá de cal. Mas o que estava acontecendo? Quem são (ou eram) esses loucos escrevendo poesia e romance – Carlos Drummond de Andrade, Czeslaw Milosz, João Cabral, Pablo Neruda, Montale, Heinrich Böll, Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Octavio Paz, Brodsky, García Márquez ("se você diz que o romance está morto, não é o romance, é você que está morto"), Canetti, Günter Grass, Kenzaburo Oe, Saramago, João Ubaldo, Ferreira Gullar e um montão de outros? O que na realidade está acontecendo?

Existem muitos estudos interessantes e extensos sobre o assunto, como o da ensaísta Leila Perrone-Moisés, em seu livro Altas literaturas (Companhia das Letras, 1998). Uma coisa talvez esteja acontecendo: a literatura de ficção não acabou, o que está acabando é o leitor. Poderá vir a ocorrer este paradoxo, o leitor acaba mas não o escritor? Ou seja, a literatura de ficção e a poesia continuam existindo, mesmo que os escritores escrevam apenas para meia dúzia de gatos pingados?

Kafka escrevia para um único leitor: ele mesmo. Recordo Camões. Ele era um arruaceiro, e acabou na prisão, ou por motivos de suas rixas ou por ter se envolvido com a infanta Dona Maria, irmã do rei João III. Para obter o perdão do rei ele propôs-se a servi-lo na Índia, como soldado. Lá ficou 16 anos e, afinal, a bordo de um navio voltou para Portugal, acompanhado de uma jovem indiana, que ele amava, e a quem dedicou o lindo soneto "Alma minha gentil, que te partiste". O navio naufragou e Camões só pensou, durante o naufrágio, em uma coisa: salvar o manuscrito dos Lusíadas e dos seus poemas. Deixou a mulher amada morrer afogada (confesso que especulo), e perdeu todos os seus bens, mas salvou os seus manuscritos. Para quem ler? Estávamos no século 16 e muita pouca gente em Portugal sabia ler. Mas Camões pensou nesse punhado de leitores, era para eles que Camões escrevia, não importava quantos fossem eles.

Os leitores vão acabar? Talvez. Mas os escritores não. A síndrome de Camões vai continuar. O escritor vai resistir.